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aliás…

Eu deveria me especializar em fazer análises minucionas das músicas que tenho ouvido.
Minha amiga e eu temos uma música-xodó, do Beto Guedes, chamada O Sal da Terra.
Vejamos, então, o que podemos fazer com o que ele nos oferece:
 

Anda, quero te dizer nenhum segredo – interessantíssimo!
Falo desse chão, da nossa casa, vem que tá na hora de arrumar – notório caso de TOC

Tempo, quero viver mais duzentos anos – meu Deus, pra quê???
Quero não ferir meu semelhante, nem por isso quero me ferir – parte bonitinha, vai…

Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a opressão – depois disso a gente abraça uma árvore e saúda o Deus-Sol
Para construir a vida nova vamos precisar de muito amor – vamos dar um desconto, pois foi de coração
A felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver – idem

A paz na Terra, amor, o pé na terra – ibidem
A paz na Terra, amor, o sal da… – ibibibibibidem

Terra, és o mais bonito dos planetas – pergunta: quantos planetas ele visitou?
Tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave nossa irmã – aqui, nesse ponto, depois de saudar o Deus-Sol, tomaremos um banho de cachoeira em homenagem à Deusa-Mãe

Canta, leva tua vida em harmonia – ok
E nos alimenta com teus frutos, tu que és do homem a maçã – “tu que és do homem a maçã”: exemplo perfeito de pessoas que não precisam usar metáforas nunca mais na vida, amém!

Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois – não, Beto. Dá dois, mesmo
Pra melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão – e depois da Deusa-Mãe vem quem? Pã? Saudemos Pã!
Recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois – Oi, Pã!

Deixa nascer o amor – ok
Deixa fluir o amor – ok, ok
Deixa crescer o amor – ok, ok, ok
Deixa viver o amor  – ok, ok, ok, ok

 

Ok, Beto. Você venceu. Paz!

Tudo porque agora, além de escutar Dalto, Claudinho & Buchecha e Placa Luminosa A SÉRIO, eu também encontrei uma nova-música-preferida-para-a-vida-inteira.
Preparados? Chama-se Sensual (repito: Sen-su-al) e é interpretada pelo Roupa Nova e pelo Toni Garrido.
 
Engulam essa:
 
Nada a dizer antes de sentir
Ter ou não ter
Repetir…
Olhar assim
Como quem não quer,
Ouvir um sim
E querer demais,
Dividir pra valer
Chegar bem fundo
E ser natural,
Ser sensual
Mais do que normal
Refletir você
Nada a dizer antes de provar
Todo prazer
Recordar…
Chegar ao fim
E ir um pouco mais
Correr atrás,
Já que tanto faz
Ser ou não pra valer
Chegar bem fundo
E ser natural,
Ser sensual
Mais do que normal
Refletir você…
 
Depois de deixá-la no repeat ad nauseam e de saracotear pela casa inteira, descobri que a letra remete pura e simplesmente a um belíssimo papai-e-mamãe. Prestem atenção: “chegar bem fundo”, “refletir você”, ”chegar ao fim e ir um pouco mais”…
A parte do “correr atrás, já que tanto faz” pode até abrir os caminhos para novas interpretações, mas o que fica mesmo é a mensagem bonita de um ato sexual sadio e, principalmente, sen-su-al.
Tou louca? Tou, não.

Eu estava tão perdida, que achava que, se mudasse as cores das paredes e tirasse aquele tom roxo, a vida voltaria a caminhar. Também passei pela fase do “vamos jogar fora tudo que quebrou ou não presta”.  Comprei flores (das quais cuido até hoje), limpei a vida e tentei caminhar.
Minha mãe, em sua doce impaciência, disse que eu tinha a obrigação de voltar a ser feliz até o final de março. Caí mais algumas vezes depois disso, até notar que as situações em si não são responsáveis por nada. Não são os acontecimentos que me levam a desacreditar, mas a minha ausência de mim. Não, não tomei drogas. Acontece que, sempre que saio do meu eixo  - pouco importando se este é feito de loucuras ou pequenas obsessões -, afundo. Simplesmente afundo. Desço, desço, desço. Sem fé, coragem, amor.
Depois, para conseguir subir, às vezes o fôlego some. E fico lá embaixo até que apareça alguma boa alma que me tire do buraco e me faça re-acreditar.
E isso aconteceu. Não assim, com toda essa facilidade que a escrita pode demonstrar. Mas sem querer, quando eu menos esperava, ela estava lá. Bracinhos estendidos, dizendo “vem, Ju. Vamos, que chegou a hora”. E fui.
É claro que ainda estou cuidando dos arranhões e hematomas adquiridos com a queda. É claro, também, que, por conhecer minhas fraquezas, serei obrigada a me equilibrar aqui em cima para que não torne a cair. Mas, mesmo assim, é libertador descobrir que caí sozinha, sem que ninguém me empurrase.
Se antes eu preferia pensar em culpados, hoje creio que a descida foi única e exclusivamente fruto de minhas vontades e escolhas.
O problema é que ali, naquele buraco triste e fundo, eu não estava sendo feliz. Nem eu mesma.
E é justamente por esse ato de bon-da-de (palavra que andei menosprezando) que agradeço a ela.
Serei feliz aí em cima e, preferencialmente, ao lado de vocês.

Até que enfim.

somos três

além de dormir todas as noites com a destemperada cadelinha Cabíria, agora também divido o quarto com uma lagartixa. Como sou babaca hasta la muerte, apelidei-a de Adocica e vivemos todas felizes e saltitantes.
Tá, tá, tá, não é nada disso. Só estou no PC até agora porque tenho medo de acordar engasgada com ela.
Muito medo. Se ela ao menos tivesse a decência de ficar no alto, em algum lugarzinho visível, eu juro que não daria a mínima e até gostaria, porque as lagartixinhas são pra lá de simpáticas. O grande problema, rapaziada, é que ela decidiu se alojar ao lado da minha cama, no criado-mudo.
Então eu, a Cabíria e a Adocica passaremos a madrugada inteirinha acordadas, fingindo estar em um sarau* sem fim.
Então tchau, porque chegou a minha vez de declamar uma poesia.
 
*nunca, mas nunca mesmo, me convidem para um sarau, combinado? Na minha opinião, saraus são tão emocionantes quanto acampamentos de escoteiros.

sem aplausos

O final da admiração é um dos sentimentos mais contraditórios de que se tem notícias. Ao mesmo tempo em que você respira aliviado por saber que aquela pessoa já não mexe com seus mais profundos e nobres anseios, surge o vazio, a incerteza. Será que somente você via aquilo? Será que a pessoa em questão nunca deixou de ser algo medíocre (no sentido de mediano) e destituído de todos os encantos que antes a paixão forjava?
Não há nada mais aflitivo e libertador do que o final da admiração. E, a menos que aquela pessoa salve alguém nos trilhos do metrô ou realize algum ato realmente heroico, ela jamais deixará de ser alguém que perdeu o que de melhor você poderia oferecer.

nível

Meu ex-namorado acabou de me contar que, quando viu Bambi no cinema, saiu da sessão às pressas porque teve uma crise de choro.

Isso me leva a crer que:

1. Meu dedo realmente é podre;

2. Meu dedo é muito podre;

3. Todas as alternativas anteriores estão corretas.

adeus, meu amor

Acabei de descobrir que a Nicole, a cadelinha que mais tempo passou com a minha família (desde 1993), não aguentou e teve de ser sacrificada.
Eu tinha 15 anos quando ela chegou, mas me lembro direitinho da carinha esquisita, do pedaço de orelha que faltava, das loucuras que ela cometia. Corria, corria, corria e batia o peito nos móveis.
Depois, um pouco mais velha, tornou-se uma espécie de sombra contínua da minha mãe. Inseparáveis. Tanto que deixou de dormir comigo e com minha irmã do meio e passou a receber todas as regalias do quarto dos donos da casa.
Já bem velhinha, teve de arrancar oito dentes de uma vez e sofreu três operações para a retirada de tumores. Mas, mesmo assim, ainda acreditávamos que ela superaria tudo.
O que sinto agora é um alívio estranho por saber que o sofrimento acabou. Mas a dor – a porra da dor que só sente quem se deixa amar por um animalzinho – é enorme.
É como se um longo capítulo de nossas vidas (16 anos, moçada!) tivesse sido arrancado.
E dói muito.
Descanse em paz, meu coração.
Caso vocês não saibam, sou discípula do caminho-reto-da-fé-cristã. Apesar de sair por aí acreditando que a estrelinha hippie que habita em meu ser sempre triunfará, a tal da culpa surge do pedaço mais profundo do inconsciente e brinca de “vamos castigar a Juliana”.
Funciona assim: maltratei alguém à mesa ou chamei uma pessoa para sair e acabei deixando-a às traças? Então eu retrocedo cinco casas no jogo e ganho, no mesmíssimo dia, um corte absurdo na sola do pé, uma ida ao pronto-socorro mais próximo, uma injeção de antitetânica e o direito de passar 15 (quinze!) dias de muleta e bota! E mais: além de tudo isso, ainda recebo uma belíssima conta de 200 reais na farmácia e a obrigação de não beber absolutamente nada nos próximos sete dias!
Das duas, uma: ou a macumba foi feita por quem realmente entende do babado, ou a cachaça de fato não simpatiza comigo.
Então é isso aí, pes-so-al. Se vocês virem uma loira, tatuada, manca e toda cagada, acenem.

ao fim

Acho que ainda não admito que apontem o dedo e caguem regras que não se aplicam à vida de ninguém que deseja ser feliz. Talvez (justamente por conta desse pequeno detalhe…) eu pese tanto em alguns momentos. Aniversários, por exemplo. Se passei algum sóbria, por favor, avisem, pois não me recordo disso. É no dia 28 de março que tenho o direito de fazer grandes merdas, mesmo que no dia seguinte eu sinta que chegou o tão esperado momento de tomar chumbinho e ter uma morte lenta…
Sabe? É meu dia. É dia de alegria, álcool, julianices a rodo e sem o medo diário e imbecil de ser julgada.
Mas sei que ali, em meio ao álcool, à voz mole e ao mundo que rodava-rodava-rodava, senti uma ausência. Não posso fazer nada. Não posso mentir. Se consegui sobreviver à dor dos primeiros meses do ano, eu sabia que, ao menos nos meus 31, haveria uma remota possibilidade de receber um telefonema, uma mensagem, um e-mail. Qualquer coisa que me fizesse acreditar que não vivi uma mentira.
Com o passar do dia, porém, tentei reconstruir os 31 de qualquer maneira. Mas não.
Então escolhi dois trechos do Caio Fernando Abreu que podem até parecer extremamente “sombrios” para alguém que acabou de se libertar dos 30, mas que me dão o alento de saber que sou humana pra caralho e posso, sim, errar à minha maneira. E mais: com a certeza de que “Ana” nada mais é que um vazio plantado em meu peito por mim, por mim, por mim. E “Ana”, no caso, é a pessoa para a qual bebi tanto nos 31, numa tola tentativa de retomar minha vida sem aquele gosto de coisas passadas e podres que devem morrer para que voltemos a viver. “Ana”, no caso, não era nada além daquela autocobrança que surge sempre que nos permitimos ser livres e felizes.
Adeus, “Ana”.
 
Trecho 1
“De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.”
 
Trecho 2
“(…) depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.”

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