Só para informar que sim, ainda estou viva, e tenho amigos que escrevem coisas lindas, lindas, lindas. De um jeito que nos apaixonamos ainda mais pela amizade que construímos. Amo o meu Lelex!
60 dias, por Alex Menotti
Olho para o apartamento, meio bagunçado, e tenho aquela sensação amarga de saber que vou abandoná-lo em breve. Ou ele vai me abandonar, sei lá. Vem apenas a certeza de que o que deveria durar mais sempre acaba. Até mesmo o que poderia durar para sempre. Faz frio, uma noite fria de julho. O silêncio incomoda. Coloco algo para embalar o momento. Dylan, é claro. Lembro-me de uma garrafa de vinho guardada no móvel do corredor. Aquela garrafa guardada para uma ocasião especial que nunca veio. Oquei, vinho, é hoje, sua hora chegou. Sirvo-me de uma taça no apartamento meio bagunçado, este que vai me abandonar.
Trabalho lentamente no vinho, 1-2 cigarros, ela passou por mim, seráfica, e foi como um solo do Coltrane em A Love Supreme no meio de tanto lixo dos anos 80. Não sabia quem ela era, achei que nunca mais a veria, mas a tal Fada da Paquera estava especialmente de bom-humor naquela noite inesperada de abril. Quando me vi, éramos um casal. Os dias estranhos tinham acabado, enfim. O canto anasalado toma conta do apartamento, aquele. Confiro a garrafa, pouco mais da metade ainda. Há quase uma semana que não coloco algo decente no estômago, penso. Foda-se. Procuro por cigarro, em vão. Desço ao botequim ao lado para comprar mais, aproveito para trazer algumas cervejas, só por garantia.
Era boa a vida na casa colorida. Não era minha casa, era dela, mas a vida era boa lá. Tinha as risadas. Tinha as noites eternas. Tinha aquele sorriso largo & profundo, que se tornava mais largo & mais profundo quando perto, muito perto, de mim. Tinha as quase juras de amor. Acendo mais um cigarro, coloco as cervejas na geladeira, na cozinha que em breve não será mais minha. Tinha também as cervejas e os chopes intermináveis nas mesas do Bar-do-Dia-da-Marmota. Tinha seu rosto repousando no meu ombro, “o melhor lugar em que já estive”, ela me disse certa vez. E sorriu seu sorriso largo & profundo.
Foi um abril incrível, aquele de 2009. Mas Deus é um cara gozador, adora brincadeira. Veio o medo. Vieram as diferenças. Vieram as palavras ríspidas. Vieram as brigas sem sentido. Veio o Fantasma dos Carnavais Passados. “Eu não consigo estar com alguém se não estou inteira”, ela me disse. “Preciso ser coerente comigo”, ela argumentou. Não me cobre coerência, penso, quando o interfone toca e o vizinho pede para abaixar a música. Abaixo o volume. A incoerência é o que torna esta porra entre o nascimento e a morte mais interessante. Mas não, meu chapa. Você tem que respeitar o que ela deseja. E assim ela se foi, deixando na lembrança um sorriso largo, profundo, tantalizante.
Ficou a saudade de tudo que houve de bom. E uma saudade lancinante de tudo que nunca houve. Entre a dor e o nada, lá do Faulkner, não escolhi o nada. Também não escolhi a dor, ela me escolheu. Deixou “aquilo tudo” guardado em algum lugar, que não sei exatamente onde é. Percebo que a música está baixa demais. À merda o vizinho. Aumento. Torto, tortinho, dou uma boa golada no vinho, uma boa tragada no cigarro. Tento lembrar o que foi dito, quando foi que tudo se tornou ladeira-abaixo. Tento imaginar o que poderia ter dito a ela. O vinho chega ao fim. A música ecoa pelo apartamento. “Forget the dead you’ve left, they will not follow you”. É isso aí, Zimmerman. É isso aí.