
A cachorrinha da virada. Ao menos é assim que gosto de pensar. Havíamos tido a Yuska, uma linda Husky enlouquecida que vivia de criar planos de fuga, a Tamires, uma Fox Paulistinha obesa que descia as escadas com as calcinhas da minha mãe na boca, e a Nicole, outra Fox, mas com um nível de loucura equivalente à sua vontade de manter-se viva – 16 anos! Depois veio a Barbarela, a cachorrinha da virada. Da minha virada. Até sua chegada, eu adorava os cães, sentia-me bem com eles por perto, mas não havia aquele amor cego e absurdo.
Ela chegou aos 36 dias de vida. Era tão, mas tão pequena, que chegamos a ir ao veterinário a fim de implorar que ele receitasse cálcio. Afinal, com aquele tamanho minúsculo, ela não vingaria. Mas vingou. Sem cálcio nem nada. Manteve-se pequena – a menor Fox que tivemos – e, aos poucos, foi mostrando sua personalidade. Ao contrário do que demonstram 99,9% dos cães, ela gostava de ficar sozinha. Precisava. Quando chegávamos da rua, ela vinha, fazia a mais doce das festinhas, abanava rabinho, punha as orelhinhas para trás e chorava fininho, fininho. Depois, já com a saudade devidamente morta e enterrada, voltava para a poltrona e ali ficava. Só saía quando ouvia algo suspeito. Ou quando o Chicão, um Dachshund pra lá de folgado, tentava roubar seu lugar ou cheirar suas “partes”.
A Barbarela era pura personalidade, pura opinião. Não dourava pílula. Não fazia a menor questão de agradar estranhos nem se enfiava debaixo das nossas cobertas para dormir. Tinha seu espaço e não aceitava nenhum desrespeito em relação a isso.
Quando saí da casa dos meus pais, o que mais doeu foi saber que não moraria mais com ela e com aquele seu jeitinho único. Mas, sempre que nos encontrávamos, ela fazia questão de demonstrar que, mesmo com a distância, o amor permanecia intacto. Vinha, fazia sua festinha, ficava um pouco por perto e voltava para sua poltrona. Ela sorria. Quando estava feliz, seu olhinhos mostravam tudo o que ela, com o maior dos cuidados, procurava esconder.
Na época em que peguei a Cabíria, uma vira-latinha loira, debochada e ciumenta, nós – Barbarela e eu – tivemos de nos distanciar um pouco. E só matávamos a saudade de fato quando minha proprietária (deve ser assim que a Cabíria se sente) não estava por perto. Aí, sim, eu via a mesma Barbarela de sempre. O chorinho fino, o amor delicado e incondicional. E, por ser tão única e diferente, ela me ganhou. Ela, sua individualidade e seu “enorme coraçãozinho” capaz de aceitar as visitas esporádicas de uma fêmea territorialista que, com um ciúme totalmente justificável, não suportava sequer que nos olhássemos.
Há 15 dias, meus pais ligaram dizendo que ela não estava legal. Não comia, não se levantava, não brigava com o Chicão nem mesmo quando ele praticava o autoprazer em cima dela. Foi internada, recebeu duas transfusões… e não melhorou. Até que nesta sexta-feira o veterinário a liberou e deixou que minha mãe a levasse para casa. A sua casa.
Quando cheguei, não recebi festinha, não ouvi o chorinho fino. Ela estava deitada, com os olhinhos arregalados e o corpinho inflando e esvaziando com muita dificuldade. Conversamos um pouco, tentei explicar que eu ainda não estava pronta e fomos dormir. Pelo que meus pais disseram, às 6 da manhã de sábado ela chegou a ter uma crise, mas logo em seguida acalmou. Às 9, quando acordaram, ela já não estava mais lá. Somente seu corpinho, na mesma posição que sempre costumou ficar. Ajudei minha mãe a limpá-la. Beijei-a e, enfim, tive de me despedir dela. De suas orelhinhas, de seu focinho. Barbarelinha, Barbie, Barbinha. A cadelinha solitária que nos presenteou, durante 13 anos, com sua companhia e sua doçura. A cadelinha-opinião que nos ensinou, com seu jeitinho pequenininho, que tanto “inho” torna-se “ão”.