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Antes eu tinha uma vida, sabe? Era chata pra caralho, apática pra caralho, mas minha. Única e exclusivamente minha. E da minha cadela. Tanto que parei de postar neste espaço porque simplesmente NÃO TINHA ASSUNTO. Eu era a incrível-mulher-sem-novidades e, por mais que reclamasse – talvez morra reclamando e discutindo com a vida –, nada abalava a rotina de acardar, tomar banho, secar os cabelos, vestir qualquer coisa, pegar ônibus, trabalhar, gargalhar vez ou outra, voltar do trabalho, tomar uma cerveja vez ou outra e dormir. Dormir sempre, que fique claro. Pois nada nessa vida tira meu sono. Ou tirava. Porque fui até Iemanjá, abaixei a cabeça e pedi. Isso em janeiro. E a coisa veio em outubro, atrasada demais, intensa demais, inteira de menos.

Eu já quis caminhar em direção às montanhas e sumir, eu já quis brigar, eu já quis discutir, eu já quis pedir perdão por coisas que não fiz. Também já quis aparecer montada num trator – pra poder passar por cima –, já torci para que ele se engasgasse e morresse, já pensei em cuspir no olho. Mas não adiantou absolutamente nada. E hoje, ao voltar do trabalho, liguei o computador, mas era no nome dele que o Facebook estava conectado. E tive de ser macho o suficiente para apertar o “sair” antes que o desejo de ler alguma coisa, de descobrir alguma coisa, comandasse a razão. E fui. E saí.

 Cá estou eu, implorando para que Deus me livre do peso de gostar de alguém que, além de não ter nada a ver comigo, não pediu porra nenhuma a Iemanjá. Não se abaixou. Não quer tudo o que quero, do jeito que quero, com a velocidade de que preciso. Porque olha… dói demais.

Domingão. Perdi a hora – deveria estar nos meus pais às 9 da manhã, mas acordei ao meio-dia – e tratei de correr. Almocei com a família (camarão na moranga e alcachofra, hmmmmmmmmmmm) e fui visitar meu novo lar. Está limpinho, limpinho, pronto pra ser decorado, amado, vivido. “Viver um lugar”, sabe? Como peguei muitos freelas, tive de voltar. Então encarei mais uma vez o metrô. A linha verde. Meu transporte principal durante mais de três anos – estou nesse apartamento há exatos dois anos, seis meses e seis dias, mas moro na Heitor há  três anos e quatro meses, o que me garante o direito de dizer que a linha verde é uma extensão da minha casa, de mim, dos meus dias. E pela primeira vez, em meses e meses, não odiei o que vi. Não odiei o aspecto blasé e beirando-o-vazio de quem mora na Zona Oeste, a assepsia de seus vagões, a ladeira. Agora, por saber que sairei daqui, posso pensar em reconhecer a importância desse lugar. Foi aqui, na Zona Oeste, na Heitor Penteado, na linha mais ufanista e babaca de São Paulo, que aprendi a ser um pouco mais gente, um pouco mais mulher, um pouco mais sozinha. Na linha verde, você não tem o direito de chorar ou usar Crocs. Você é obrigado a se mostrar como um vencedor, mesmo que por dentro valha bem menos que lixo. Na linha verde, meu amor, você aprende a engolir sua dor, vestir a roupa do foda-se e encarar a vida.

Levo comigo muito respeito e nenhuma saudade.

Hoje a Antônia chegou antes das 8 da matina para começar a embalar as coisas. Não ajudei muito no começo - a bem da verdade, ainda estou arrasada com a partida do Jamelãozinho -, mas acabei tomando vergonha na cara.

Eis os primeiros resultados:

Era uma casa muito engraçada…

né?

Eu até escreveria alguma coisa, mas… tá tudo aqui. Outra vez. Com a diferença de que agora estou realmente no limite. No limite do tolerável, saca?

duas de mim

Sei que não ando dedicando aquele tempo gostoso, quentinho & macio a este espaço, mas ó: a culpa é mais da vida, que anda corrida, do que minha. Porque existe a Juliana que para, respira e sente, e existe a outra, a dona-doida, que jurou nunca mais ser atropelada pelo rolo compressor. E as duas são obrigadas a conviver, a coabitar, a saber que às vezes uma tem de fazer faxina enquanto a outra surge toda-toda. E agora a Juliana que para, respira e sente também se agacha. Limpa o chão e retira o limo, a crosta de sujeira que ficou impregnada no solo. Ela sabe – porque para, respira e sente – que a dona-doida está muito ocupada e precisa, ao menos por enquanto, permanecer forte e sob os holofotes, porque é ela quem hoje põe a comida na mesa. É ela, a nem um pouco lúcida, quem acorda às 7 da manhã e sai para ganhar a vida. Talvez um dia a outra tome seu lugar. Talvez ambas entrem num acordo e, como cidadãs dos “novos tempos”, consigam, enfim, ter uma relação tão equilibrada quanto aquelas dos casais modernos da TV. Enquanto isso não acontece, quem sai é a dona-doida. E quem fica, para, respira e sente sou eu.

mais uma dela

 

Minha linda Barbarela. No céu dos cães especiais.

A cachorrinha da virada. Ao menos é assim que gosto de pensar. Havíamos tido a Yuska, uma linda Husky enlouquecida que vivia de criar planos de fuga, a Tamires, uma Fox Paulistinha obesa que descia as escadas com as calcinhas da minha mãe na boca, e a Nicole, outra Fox, mas com um nível de loucura equivalente à sua vontade de manter-se viva – 16 anos! Depois veio a Barbarela, a cachorrinha da virada. Da minha virada. Até sua chegada, eu adorava os cães, sentia-me bem com eles por perto, mas não havia aquele amor cego e absurdo.

Ela chegou aos 36 dias de vida. Era tão, mas tão pequena, que chegamos a ir ao veterinário a fim de implorar que ele receitasse cálcio. Afinal, com aquele tamanho minúsculo, ela não vingaria. Mas vingou. Sem cálcio nem nada. Manteve-se pequena – a menor Fox que tivemos – e, aos poucos, foi mostrando sua personalidade. Ao contrário do que demonstram 99,9% dos cães, ela  gostava de ficar sozinha. Precisava. Quando chegávamos da rua, ela vinha, fazia a mais doce das festinhas, abanava rabinho, punha as orelhinhas para trás e chorava fininho, fininho. Depois, já com a saudade devidamente morta e enterrada, voltava para a poltrona e ali ficava. Só saía quando ouvia algo suspeito. Ou quando o Chicão, um Dachshund pra lá de folgado, tentava roubar seu lugar ou cheirar suas “partes”.

A Barbarela era pura personalidade, pura opinião. Não dourava pílula. Não fazia a menor questão de agradar estranhos nem se enfiava debaixo das nossas cobertas para dormir. Tinha seu espaço e não aceitava nenhum desrespeito em relação a isso.

Quando saí da casa dos meus pais, o que mais doeu foi saber que não moraria mais com ela e com aquele seu jeitinho único. Mas, sempre que nos encontrávamos, ela fazia questão de demonstrar que, mesmo com a distância, o amor permanecia intacto. Vinha, fazia sua festinha, ficava um pouco por perto e voltava para sua poltrona. Ela sorria. Quando estava feliz, seu olhinhos mostravam tudo  o que ela, com o maior dos cuidados, procurava esconder.

Na época em que peguei a Cabíria, uma vira-latinha loira, debochada e ciumenta, nós – Barbarela e eu – tivemos de nos distanciar um pouco. E só matávamos a saudade de fato quando minha proprietária (deve ser assim que a Cabíria se sente) não estava por perto. Aí, sim, eu via a mesma Barbarela de sempre. O chorinho fino, o amor delicado e incondicional. E, por ser tão única e diferente, ela me ganhou. Ela, sua individualidade e seu “enorme coraçãozinho” capaz de aceitar as visitas esporádicas de uma fêmea territorialista que, com um ciúme totalmente justificável, não suportava sequer que nos olhássemos.

Há 15 dias, meus pais ligaram dizendo que ela não estava legal. Não comia, não se levantava, não brigava com o Chicão nem mesmo quando ele praticava o autoprazer em cima dela. Foi internada, recebeu duas transfusões… e não melhorou. Até que nesta sexta-feira o veterinário  a liberou e deixou que minha mãe a levasse para casa. A sua casa.

Quando cheguei, não recebi festinha, não ouvi o chorinho fino. Ela estava deitada, com os olhinhos arregalados e o corpinho inflando e esvaziando com muita dificuldade. Conversamos um pouco, tentei explicar que eu ainda não estava pronta e fomos dormir. Pelo que meus pais disseram, às 6 da manhã de sábado ela chegou a ter uma crise, mas logo em seguida acalmou. Às 9, quando acordaram, ela já não estava mais lá. Somente seu corpinho, na mesma posição que sempre costumou ficar. Ajudei minha mãe a limpá-la. Beijei-a e, enfim, tive de me despedir dela. De suas orelhinhas, de seu focinho. Barbarelinha, Barbie, Barbinha. A cadelinha solitária que nos presenteou, durante 13 anos, com sua companhia e sua doçura. A cadelinha-opinião que nos ensinou, com seu jeitinho pequenininho, que tanto “inho” torna-se “ão”.

não

Não larguei esse espacinho, não entrei para a Bola de Neve nem cometi nenhuma extravagância maior – sim, há várias.

Só estou um pouco mais quieta do que o normal, ora.

(E também estou pra lá de ocupada curtindo uma paixão platônica das mais ridículas, mas isso é assunto pra analista. Porque olha… dá vergonha até de pensar.)

não te amo mais

 

 

Saí de casa aos 29 para morar com uma amiga. Heitor Penteado, pertinho do metrô e da Vila. Depois de 11 meses e algumas brigas, decidi que deveria viver sozinha. Heitor Penteado, pertinho do metrô e da Vila. E hoje, mais de três anos depois, já não me reconheço aqui. O apartamento dos sonhos se transformou em uma prisão onde, para tomar banho, tenho de ficar ao lado do tanque e de frente para a máquina de lavar. Que está quebrada.

Quando vim, era o espaço ideal. Pequeno, aconchegante, decorado à minha maneira. Mas saí do emprego e meu então namorado pintou as paredes de vermelho e roxo para depois desaparecer – nem ele suportou as cores que escolheu. Aí veio o turbilhão. Amigos, recém-conhecidos, inimigos… todos apareciam para dormir. Até mesmo dois namoradinhos dos quais sentia tanta, mas tanta vergonha, que preferia mantê-los aqui, longe dos olhares alheios. Até mesmo o garçom que catarrou no chão e disse que “Zoio de Lula”, do Charlie Brown Jr., é uma lição de vida.

O apartamento fica bem abaixo da portaria, no mesmo andar em que o zelador e o faxineiro vivem. E eles já estão tão familiarizados com meus altos e baixos, que às vezes me sinto casada. Mesmo depois de as paredes voltarem ao branco original, comecei a procurar outro lugar. Mas a vida me engoliu e, sem tempo para o supérfluo, fui empurrando com a barriga. A cada dia que se passava, mais e mais pesado ele ficava.

A verdade é que eu o odeio. Odeio seu tamanho, seu cheiro, sua forma. Odeio cada memória guardada em suas paredes, cada manhã sob seu teto. Odeio o gato que os vizinhos fizeram na minha internet, a senhora louca que chama de vagabunda qualquer mulher que passa pela portaria. Odeio o fato de ser pertinho do metrô e da Vila. E odeio, acima de tudo, saber que não poderei voltar a amá-lo, porque a Juliana que aqui viveu morreu há algum tempo. Mais precisamente, quando teve de arcar com a certeza de que havia errado tanto. Fraca e indefesa, ela se foi. Explodiu. E em seu lugar apareceu outra Juliana. A mais velha e centrada que já não perde a hora ao acordar. A que se sente útil quando trabalha e que não compra congelados. A que teve de limpar toda a sujeira que a morta, sem saber que estava no fim, espalhou. Mas era tanta imundície e tanta bosta, que desistiu. Por mais que arregaçasse as mangas e se abaixasse para faxinar cada cantinho de rancor-lixo-tristeza, sempre ficava um resto, um pedacinho de coração incrustado, uma lembrança de acontecimentos endurecidos que não sairiam nem mesmo com muito Sapólio e água quente. A essa Juliana, a de agora, não restou nada a não ser odiar esse lugar.

Daqui a 20 anos eu provavelmente me lembrarei daqui com ternura. Talvez meu corarão chegue até mesmo a disparar ao passar pela frente do prédio. Mas não me arrependerei de ter saído, porque ninguém esquece a tristeza de um dia ter se curvado para tentar retirar do chão não o limo e a poeira do tempo, mas pedaços do próprio coração que explodiu.

meu Cacaso

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